Quais são os distúrbios do movimento?

Existe uma variedade deles. Todos são sinais e sintomas de doenças neurológicas.

Apesar de serem pouco conhecidos, existem vários tipos de distúrbios de movimento, ou seja, movimentos anormais episódicos ou contínuos de partes do corpo. Essas manifestações são sinais e sintomas de doenças neurológicas.

Quando marcados pela lentificação do corpo, são chamados distúrbios do movimento hipocinéticos e ocorrem com maior frequência em pessoas mais velhas. Os caracterizados pela rapidez são os distúrbios do movimento hipercinéticos, mais comuns em crianças e jovens.

No primeiro grupo (hipocinéticos), destaca-se o parkinsonismo, disfunção motora expressa por movimentos rígidos e lentos que dificultam locomoção, fala e deglutição, entre outras funções motoras. Sua causa mais conhecida é a doença de Parkinson, enfermidade relacionada à redução progressiva dos neurônios que produzem a dopamina, neurotransmissor que atua nos movimentos do corpo. Mas o parkinsonismo pode ser provocado por outros problemas, desde doenças genéticas e degenerativas até medicações.


Já os distúrbios dos movimentos hipercinéticos são mais variados. Os principais são:


Tremores: caracterizados por movimentos oscilatórios involuntários, os tremores são os mais frequentes dentre todos os tipos de distúrbios do movimento. Eles acometem mais as mãos, mas também podem aparecer na cabeça, nas cordas vocais e nos membros inferiores. Podem ter múltiplas causas, sendo a mais conhecida a doença de Parkinson. Existem também os chamados tremores essenciais, distúrbio motor que aparece quando a pessoa está em movimento e diminui em repouso; e os tremores fisiológicos, associados a situações de estresse e ansiedade, reação a medicações ou derivados de outras doenças em regiões específicas do corpo, como a tireoide.

Distonias: são posturas e movimentos anormais e geralmente padronizados, muitas vezes na forma de torções involuntárias. Podem acometer qualquer parte do corpo. Nas crianças, costumam surgir primeiro nos membros inferiores. Nos adultos, a cabeça e o pescoço são as áreas mais afetadas.

Coreias: são movimentos anormais que se assemelham a uma dança. Podem ocorrer em qualquer parte do corpo e geralmente acometem mais de uma parte simultaneamente. A causa mais comum de coreias de origem hereditária é a doença de Huntington.

Tiques: mais comuns na infância, os tiques se manifestam por meio de movimentos estereotipados ou sons anormais, que podem ser simples ou mais elaborados. Podem afetar qualquer parte do corpo, embora seja mais comum terem início na cabeça e no pescoço. Uma causa conhecida de tiques é a síndrome de Tourette, distúrbio caracterizado por vocalizações e movimentos súbitos, repetidos e indesejados.

Estereotipias: são gestos (como um movimento específico da mão, por exemplo) ou manifestações verbais sucessivos, geralmente bem padronizados e que se repetem em várias ocasiões. Alguns pacientes dentro do espectro do autismo apresentam esse distúrbio, que também pode se manifestar em outras doenças neurológicas.

Mioclonias: são marcadas por contrações musculares mais breves em qualquer parte do corpo, embora sejam mais comuns nos membros superiores. São condições raras e têm diversas causas.

Um mesmo paciente pode ter mais de um distúrbio do movimento, dependendo da doença que o provoca. Alguns distúrbios também podem ocorrer após um AVC (acidente vascular cerebral) ou infecções e também em portadores de doenças autoimunes, como a esclerose múltipla.


Como cuidar
Frente a quaisquer sinais motores incomuns, principalmente quando começam a impactar a rotina, a orientação é procurar um neurologista especializado em distúrbios do movimento para a identificação correta do problema, investigação da causa e desenvolvimento de um plano de tratamento focado na melhoria das funções e da qualidade de vida do paciente.

A abordagem terapêutica é sempre personalizada, variando em função do perfil do indivíduo e do tipo de distúrbio.


Tremores: quando associados à doença de Parkinson, além de medicamentos, existem recursos como a Estimulação Cerebral Profunda, conhecida pela sigla DBS, do inglês Deep Brain Stimulation. Essa terapia envolve a instalação de dois eletrodos em regiões do cérebro afetadas pela doença, conectados a um gerador de pulsos afixado na região da clavícula. A geração de pulsos ajuda a controlar os sintomas. No caso dos tremores fisiológicos, o tratamento é direcionado ao combate das causas. Já para o tremor essencial existem medicamentos à base de propranolol e de primidona. Também pode ser indicada a Estimulação Cerebral Profunda.

Distonias: as terapias variam em função da causa do distúrbio e da parte do corpo afetada. Para distonias mais localizadas, envolvendo face, pescoço ou mãos, a toxina botulínica pode ser utilizada. Para aquelas que atingem mais segmentos corporais, a depender da causa, a Estimulação Cerebral Profunda pode ser indicada. Medicações, às vezes combinadas, também podem ser administradas.

Coreias: a terapêutica também depende da causa-raiz do distúrbio. No geral, podem ser usados medicamentos antipsicóticos e os inibidores de VMAT, recém-chegados ao Brasil.

Tiques: podem ser tratados com medidas não farmacológicas, principalmente a terapia cognitivo comportamental. A depender da gravidade, medicações de diferentes classes podem ser usadas. Alguns casos também respondem à toxina botulínica e, nos refratários, pode ser tentada a Estimulação Cerebral Profunda.

Estereotipias: intervenções terapêuticas precisam levar em conta quais são os seus gatilhos. Podem ser indicadas psicoterapia e também medicações.

Mioclonias: existem múltiplos tratamentos disponíveis, principalmente farmacológicos, que são prescritos de acordo com a causa.


De forma geral, é recomendado o acompanhamento multidisciplinar, com neurologista, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional e nutricionista, entre outros. Cada um desses especialistas contribuirá com práticas e orientações que melhoram o tratamento e a qualidade de vida dos pacientes.

Os tremores e a doença de Parkinson e seus sintomas já são mais conhecidos atualmente. Porém, outros distúrbios do movimento, por estarem ligados a doenças mais incomuns, permanecem negligenciados e até mesmo estigmatizados, como no caso dos tiques e outros movimentos estereotipados que acabam sendo percebidos como engraçados. Para mudar esse cenário, é fundamental difundir informações sobre este tema para a população, pois isso abre caminho para garantir que cada vez mais pessoas que sofrem com esses problemas saibam que é possível buscar ajuda especializada.


Fonte: Matheus Alves da Silva – CRM/SP 209.407
Data de produção: 19/02/24
Data da última atualização: 19/02/2024