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Leucemia linfoide crônica: um em cada três pacientes não precisa de tratamento

Mas quem precisa conta hoje com novos medicamentos e novas gerações de quimioterápicos para controle da doença.

A leucemia linfoide crônica (LLC) é um tipo de câncer provocado por mutações genéticas que fazem com que os linfócitos B (um tipo de glóbulo branco) se multipliquem descontroladamente, tornando-os disfuncionais. Como essas células fazem parte do nosso sistema imunológico, sendo responsáveis pela fabricação dos anticorpos que combatem as infecções, as pessoas com esse tipo de leucemia ficam mais sujeitas a elas. Por se desenvolver de maneira lenta, muitas vezes passam-se anos sem que a doença seja percebida. Só nas fases mais adiantadas aparecem sintomas como aumento dos gânglios, febre, suor noturno, perda de peso e infecções. Assim, oito em cada dez pacientes só descobrem a enfermidade em meio à investigação de outro problema de saúde ou durante a realização de um exame de sangue de rotina.

A leucemia linfoide crônica afeta principalmente os mais idosos, a partir dos 65 anos. Crianças e adolescentes, em sua maioria, têm a versão aguda – a leucemia linfoide aguda (LLA), caracterizada pelo seu desenvolvimento fulminante.

Um em cada três pacientes com leucemia linfoide crônica não precisa de tratamento, apenas acompanhamento pelo médico hematologista, para controle e prevenção de doenças infeciosas. Pessoas com LLC, por exemplo, precisam tomar a quarta dose da vacina da Covid-19.

Ainda são desconhecidas as causas que levam às mutações nos linfócitos B, embora os especialistas já tenham constatado uma correlação entre a doença e a exposição à radiação e a produtos químicos perigosos, como agrotóxicos. Sabe-se também que não existe apenas uma única mutação responsável pela doença, ou seja, mutações podem ocorrer em mais de um gene da célula.

Diagnóstico
O hemograma, um exame de sangue bastante simples, permite identificar sinais de alerta para a presença da LLC, uma vez que é capaz de detectar um número elevado de linfócitos na corrente sanguínea. Porém, outros métodos diagnósticos devem ser empregados para confirmar a doença, descobrir subtipos e mapear características genéticas e moleculares das células doentes.

A partir de amostra de sangue, outro exame realizado é a imunofenotipagem por citometria de fluxo, método baseado na aplicação de vários tipos de anticorpos no material de análise com objetivo de descobrir qual é a linhagem fenotípica da doença, ou seja, o padrão de proteínas que é produzido pelas células leucêmicas. Por meio desse exame, o médico saberá se está mesmo diante de uma doença que afeta os linfócitos B.

O cariótipo e o exame Fish (Hibridização Fluorescente in Situ) são recursos importantes para verificar alterações numéricas e estruturais nos cromossomos das células doentes. Para saber se a doença está associada a mutações genéticas que provocam alterações em determinadas proteínas, o ideal é fazer também análises moleculares por meio do exame de PCR (polymerase chain reaction, em português, reação em cadeia da polimerase) ou análise de mutações linfoides a partir de sequenciamento genético de última geração.

Na grande maioria dos casos, o diagnóstico é feito somente através de exames de sangue, não sendo necessários exames de medula óssea.

Esse conjunto de informações é fundamental para o médico predizer a forma de evolução da doença (estratificação da doença), avaliar se o paciente precisará ou não receber tratamento e, em caso positivo, qual o tratamento indicado para cada caso. Em centros de excelência como a BP todos esses exames diagnósticos estão disponíveis.

Avanços no tratamento
Sucessivos avanços registrados nas últimas décadas vêm permitindo a personalização dos tratamentos e tornando a LLC cada vez mais controlável. Para os portadores da doença trata-se de uma ótima notícia, uma vez que a grande maioria, em razão da idade mais avançada, não é elegível ao transplante de células-tronco (transplante de medula óssea), ainda o único caminho a partir do qual se pode falar em cura.

Sabe-se, por exemplo, que pacientes com mutação no gene TP53 não respondem à quimioterapia, o que torna fundamental investigar a presença ou não dessa alteração genética para se desenhar uma estratégia terapêutica personalizada. No momento do diagnóstico, cerca de 10% dos pacientes apresentam essa mutação. No caso de recaída (retorno da progressão da doença após um primeiro tratamento), esse percentual sobre para 40%. Para pacientes com essa mutação já estão disponíveis novas classes de medicamentos, como os inibidores das proteínas BTK e BCL2. Impedindo a ação dessas proteínas, esses remédios de consumo oral fazem com que as células doentes parem de se proliferar.

Para indivíduos sem a mutação, são definidas estratégias de tratamento à base de novas gerações de quimioterápicos e novas classes de medicamentos (anticorpos monoclonais e terapia-alvo), considerando diferentes aspectos da doença e as condições clínicas do paciente.

Pesquisas e testes de novas opções terapêuticas seguem em desenvolvimento, sempre visando aumentar aprimorar o controle da doença e reduzir efeitos colaterais. A tendência é diminuir cada vez mais o uso da quimioterapia.

Fontes: Danielle Leão - CRM/SP 94.841 e Alex Sandes (Fleury) - CRM/SP 102.803

Data da última atualização: 04/03/2022