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Coalizão Covid-19 Brasil publica estudo sobre o efeito da azitromicina no tratamento de pacientes com Covid-19 em estado grave

Pesquisa revela que a adição da azitromicina ao tratamento de pacientes com Covid-19 em estado grave – uma das práticas mais adotadas em todo o mundo – não melhora a evolução clínica dos indivíduos. O resultado do estudo pode contribuir para mudar a rotina de cuidados contra a doença

Publicado em 4 de setembro de 2020

Uma aliança para condução de pesquisas, formada por Hospital Israelita Albert Einstein, HCor, Hospital Sírio-Libanês, Hospital Moinhos de Vento, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, Brazilian Clinical Research Institute (BCRI) e Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva (BRICNet), avalia a eficácia e a segurança de potenciais terapias para pacientes com Covid-19. Denominada Coalizão Covid-19 Brasil, a iniciativa conduz dez estudos voltados a diferentes populações de pacientes infectados pelo novo coronavírus.  A Coalizão já havia publicado um primeiro estudo no The New England Journal of Medicine avaliando o uso de hidroxicloroquina isolada ou associada a azitromicina em pacientes hospitalizados com doença leve e moderada e outro estudo no Journal of the American Medical Association (Jama) avaliando o uso do corticoide dexamatasona em pacientes internados em UTI com quadro pulmonar de alta gravidade (síndrome da angústia respiratória aguda -Sara). 

Um novo estudo, nomeado Coalizão II, avaliou se o antibiótico azitromicina poderia trazer benefícios a pacientes adultos hospitalizados com formas graves de Covid-19 quando adicionado ao tratamento padrão. O estudo foi aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e os resultados foram publicados no periódico científico The Lancet nesta sexta-feira, 4/9. 

O Coalizão II teve início no dia 28/3/2020 e realizou a inclusão do último paciente no dia 19/5/2020. Foram cadastrados 447 indivíduos atendidos em 57 hospitais brasileiros. Deste total, a Covid-19 foi confirmada em 397 pacientes, que serviram de base para a análise principal. Todos apresentavam ao menos um dos seguintes critérios de gravidade: necessidade de uso de mais de 4 litros de oxigênio por dia, de cânula nasal de alto fluxo, de ventilação não invasiva com pressão positiva ou de ventilação mecânica. Além disso, eram portadores de fatores de risco para agravamento da doença (hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares e insuficiência renal crônica). Cerca de 50% dos pacientes incluídos nesta pesquisa estavam em ventilação mecânica quando o estudo começou.

Por meio de randomização (sorteio), 214 pacientes receberam azitromicina mais o tratamento padrão e 183 receberam tratamento padrão sem azitromicina. Tratamento padrão incluía todas as medidas de suporte hospitalar, uso de outros tratamentos como antivirais e, conforme padrão da época da realização do estudo, hidroxicloroquina. A azitromicina foi ministrada em doses diárias de 500 mg por via oral, nasogástrica ou intravenosa durante dez dias.

Os pacientes foram acompanhados durante 29 dias, mas a principal análise foi feita com base no estado clínico dos participantes 15 dias após a implantação dos regimes terapêuticos. A avaliação considerou seis aspectos: ter recebido alta, mas manifestar sequela; estar internado, porém sem limitações; permanecer internado e continuar recebendo oxigênio; precisar de oxigênio, mas sem ventilação mecânica; fazer uso de ventilação mecânica e, por fim, ter vindo a óbito. O objetivo principal foi avaliar se a adição de azitromicina ao tratamento padrão poderia resultar em melhor evolução clínica dos pacientes.

O que ocorreu com os pacientes incluídos no estudo?

A análise feita 15 dias após o início dos tratamentos mostrou que não houve diferença entre os grupos na chance de os pacientes apresentarem melhora segundo a escala de seis pontos usada para aferir a evolução clínica. Com isso, é possível inferir que o uso de azitromicina associado ao tratamento padrão não mostrou benefícios para a recuperação dos pacientes.

Também não houve diferença importante na mortalidade entre o grupo medicado com azitromicina mais tratamento padrão (incluindo hidroxicloroquina) e o grupo que recebeu apenas tratamento padrão (incluindo hidroxicloroquina). No primeiro, a taxa de óbitos após 29 dias foi de 42%. Entre o grupo controle, foi de 40%. A elevada taxa de óbito demostra a gravidade desta população e a necessidade de pesquisas adicionais para identificação de terapias seguras e eficazes.

Por fim, não houve diferenças significativas no tempo médio de internação: 26 dias para os pacientes que receberam azitromicina mais tratamento padrão e 18 dias entre os pacientes que receberam apenas a terapia padrão.

Efeitos adversos 

A incidência de eventos colaterais foi semelhante nos dois grupos de pacientes. Entre os que receberam a adição da azitromicina ao tratamento padrão, por exemplo, 39% apresentaram insuficiência renal e precisaram ser submetidos à diálise. No grupo dos medicados com a terapia padrão, o índice foi de 33%.

Conclusão

O uso da azitromicina não melhora a evolução clínica de pacientes com Covid-19 em estado grave. Os achados do estudo, portanto, não sustentam a indicação do uso rotineiro desta terapia no tratamento da doença em casos graves.

Importância do estudo Coalizão II

Hoje, a azitromicina é o segundo remédio mais usado no mundo no tratamento de pacientes com Covid-19 em estado grave. O resultado desse estudo – ao que se sabe, primeiro estudo randomizado do mundo a avaliar o efeito da adição da azitromicina à terapia padrão –, demonstrando a ineficácia desse antibiótico, pode contribuir para mudar a prática clínica adotada até o momento no cuidado aos pacientes. Vale destacar que estes achados são específicos para a população de pacientes hospitalizados com Covid-19 em estado grave.

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