O que são arritmias cardíacas?

O que são arritmias cardíacas?
As arritmias são caracterizadas por alterações do batimento cardíaco, seja acelerando (taquiarritmias) ou alentecendo (bradiarritmias) a frequência cardíaca. Para entendermos um pouco mais sobre essa alteração que afeta o coração, vamos começar explicando um pouco sobre a anatomia do coração e como as estruturas estão interligadas.
O coração humano é formado por quatro câmaras por onde o sangue percorre sempre o mesmo caminho, sendo a metade de cima formada por dois átrios e a metade de baixo por dois ventrículos. Os átrios são menores e são câmaras que recebem o sangue, não tendo uma musculatura tão desenvolvida, ao contrário dos ventrículos, que são responsáveis pelo bombeamento efetivo do coração.

Esse funcionamento do coração como um sistema de bombeamento ocorre coordenadamente a partir de células que emitem estímulos elétricos de forma ordenada. São essas células que, quando apresentam alterações, desenvolvem arritmias.

Em condições normais, o coração bate de 50 a 100 vezes por minuto, sendo o estímulo iniciado nos átrios seguindo até o ventrículo para a contração cardíaca. As arritmias podem se originar em qualquer lugar do trajeto do estímulo elétrico, e isso muda a característica de sintomas, tratamento e chance de acometimentos mais graves.

Dentre os problemas mais associados a arritmias, temos o acidente vascular cerebral (AVC), a parada cardíaca (PCR) e a morte súbita. A morte súbita é o evento mais crítico, que sempre que acomete atletas toma grandes proporções na mídia.

As arritmias podem ser intermitentes ou permanentes, sintomáticas e assintomáticas, bem toleradas pelo paciente ou que tenham prejuízo à circulação cardíaca.

Tipos de arritmias

Bradiarritmias: ocorrem quando o ritmo do coração está alentecido – abaixo de 50 batimentos por minuto. Muitas vezes o paciente não apresenta sintomas, sendo o diagnóstico feito nos exames de rotina. Os sintomas podem ser cansaço aos esforços, tonturas, pré-síncope ou síncope (desmaio).

Taquiarritmias: ocorrem quando o ritmo do coração está periodicamente ou constantemente acelerado, acima de 100 batimentos por minuto, fora de situações em que a taquicardia seria esperada, como em atividade física ou na presença de febre. Elas podem surgir tanto nos átrios quanto nos ventrículos, e essa diferença é importante para a investigação e tratamento.
A principal e mais comum taquiarritmia em nosso meio é a fibrilação atrial. Ela tem início nos átrios, quando a atividade elétrica está totalmente desorganizada, mas também interfere na contração ventricular, tornando o batimento, além de acelerado, desorganizado/descompassado. Durante a fibrilação atrial os átrios estão tentando contrair numa velocidade tão rápida que passam apenas a tremer, em vez de contrair. Essa velocidade alta ainda é filtrada ao passar para os ventrículos, mas de maneira irregular, deixando assim a frequência cardíaca alta e irregular.

Os principais sintomas do paciente que apresenta fibrilação atrial são palpitações, falta de ar, sensação de que o coração está batendo desordenadamente. A fibrilação atrial é a principal causa de internação por arritmias (cerca de 33%). Sua prevalência aumenta com a idade e frequentemente está associada a doenças cardíacas estruturais, com início por volta dos 40 anos e pico de incidência entre 70-80 anos. Em pacientes mais jovens, os homens são mais acometidos e, com o passar da idade, a partir dos 75 anos, temos mais mulheres afetadas.

A principal complicação da fibrilação atrial é o acidente vascular cerebral (AVC), que ocorre pela formação e deslocamento de coágulos de dentro dos átrios para o sistema vascular arterial até o cérebro. Essa complicação pode ser evitada com uso de medicações que impedem a formação de coágulos (anticoagulantes). Por isso, o diagnóstico e acompanhamento dessa arritmia são tão importantes.

Outras arritmias mais benignas que também começam nos átrios são as extrassístoles supraventriculares e taquicardias paroxísticas supraventriculares. São mais comuns em pacientes jovens, normalmente congênitas, pela presença de um foco de arritmia ou um feixe elétrico anômalo. Normalmente são bastante sintomáticas, o que acaba incomodando bastante o paciente. Podem ocorrer também arritmias em crianças

Outros tipos mais raros de arritmia e relacionadas com hereditariedade são: síndrome de Brugada, síndrome do QT longo, síndrome do QT curto, cardiomiopatia hipertrófica e taquicardia ventricular catecolaminérgica.

Os fatores de risco para o desenvolvimento de arritmias são:

Consumo de álcool
Tabagismo
Hipertensão
Diabetes
Insuficiência cardíaca
Estresse
Sedentarismo
Sobrepeso e obesidade
Apneia do sono
Distúrbios de tireoide
Diagnóstico

O diagnóstico das arritmias envolve avaliação médica e se inicia com a história clínica e o exame físico. Pela característica de algumas arritmias serem intermitentes, muitas vezes o exame físico é normal e, assim, são necessários exames complementares para auxiliar no diagnóstico.

O principal exame é o eletrocardiograma de 12 derivações. De realização rápida e não invasiva, o eletrocardiograma é o exame no qual o coração é monitorado por eletrodos na pele e o sinal elétrico transcrito em papel. Ele permite analisar a frequência cardíaca, o tipo de arritmia e o local onde ela surge.

Caso o paciente apresente sintomas intermitentes de arritmia, pode ser solicitado um holter de 24h. Esse exame também é uma monitorização do coração por meio de eletrodos, porém com gravação de 24h. O paciente fica com o aparelho conectado e pode registrar os momentos em que apresentar sintomas.

Também temos o looper, que é um gravador de eventos, tipo o holter, que pode ficar monitorando o paciente por até 14 dias, além dos dispositivos “wearables” (vestíveis), como os relógios que monitoram a frequência cardíaca e fazem uma derivação de eletrocardiograma. Os “wearables” têm auxiliado bastante no diagnóstico de arritmias.

Por fim, caso nada seja encontrado, pode-se realizar um estudo eletrofisiológico – um método invasivo de avaliação do sistema elétrico do coração, realizado em laboratório de Hemodinâmica, sob anestesia, via cateterismo das veias. Apesar de invasivo, trata-se de um exame seguro, com baixas taxas de complicação.

Tratamento

O tratamento das arritmias engloba desde tratamento medicamentoso, procedimentos como ablação e implante de marca-passo definitivo até implante de cardiodesfibrilador.

No caso das bradiarritmias, normalmente o tratamento é com implante de marca-passo. Trata-se de um dispositivo composto por uma unidade geradora com circuitos de funcionamento, bateria e cabo-eletrodos que são responsáveis por levar o estímulo elétrico até o coração. Atualmente já é possível o implante de um marca-passo sem eletrodo (leadless pacemaker). O dispositivo tem um tamanho bem reduzido e é colocado diretamente dentro do coração, ancorado entre o músculo cardíaco, sem a necessidade dos cabos para estimulação, evitando o risco de infecção associada a dispositivos e fratura de eletrodo. A BP é pioneira na implantação desse tipo de marcapasso no Brasil, que é considerado na cardiologia como uma tecnologia revolucionária.

Os cardiodesfibriladores implantáveis são dispositivos utilizados no tratamento das taquiarritmias malignas. Pacientes com taquicardias ventriculares, disfunção do músculo do coração, podem precisar de um cardiodesfibrilador para reverter uma arritmia com um choque elétrico dentro do coração e assim evitar uma parada cardíaca.

Por último, também pode-se tratar outras taquiarritmias com ablação percutânea, que consiste em levar um cateter até o coração, por dentro das veias, e realizar a cauterização do foco que está gerando a taquicardia. Para muitos pacientes, particularmente aqueles que sofrem de anormalidades congênitas, a ablação percutânea pode representar a cura das taquiarritmias. A BP foi um dos primeiros hospitais do mundo e o primeiro do Brasil a fazer esse tratamento a partir de 1988.

Além dos tratamentos já bem estabelecidos, centros de excelência em cardiologia como a BP estão avançando em novas frentes terapêuticas com a utilização de técnicas combinadas para o tratamento da fibrilação atrial. Além da ablação percutânea para eliminar os focos de arritmia, são instalados plugs dentro das áreas do coração onde se formam os coágulos a fim de isolá-las mecanicamente, protegendo o paciente de um AVC. A BP também foi pioneira nesse tipo de tratamento, realizando-o pela primeira vez em 2015. Os especialistas projetam que no futuro próximo essa forma de tratamento combinado se torne padrão.

Outra importante fronteira de inovação terapêutica é a genética, uma vez que existem várias tipos de arritmias congênitas graves (síndrome do QT longo, cardiomiopatia hipertrófica, síndrome do QT curto, síndrome de Brugada etc.) derivadas de alterações cromossômicas hereditárias. Muitas delas ocasionam a morte súbita de jovens saudáveis e em plena atividade física, como no caso de jogadores de futebol profissional que morrem em campo.

Já está em curso o desenvolvimento de painéis genéticos que permitirão o rastreio das doenças e maior assertividade no aconselhamento familiar. Esse tipo de informação possibilitará, ainda, o diagnóstico pré-implantacional de embriões livres de mutações do gênero para a fertilização in vitro, tecnologia já usada em outras áreas da medicina objetivando interromper o ciclo de transmissão de doenças genéticas entre as gerações.

Também estão em andamento em alguns centros internacionais pesquisas de tratamento genético da síndrome do QT longo a partir da inativação de proteínas do código genético causadoras das anormalidades que provocam a arritmia que favorece a morte súbita.

Prevenção

Exceto no caso das arritmias de origem congênita, é possível adotar medidas que ajudam a manter o ritmo cardíaco saudável. Confira algumas dicas:

Transforme a alimentação balanceada em um hábito para toda a vida.
Faça exercícios físicos regularmente. Escolha a atividade que for mais prazerosa.
Elimine o tabagismo e o consumo de outros tipos de drogas.
Evite o consumo excessivo de álcool, café, energéticos e tipos de chá que possuem muita cafeína, como mate e chá verde.
Controle o estresse e cuide bem da saúde emocional.
Dormir boas horas de sono é fundamental.
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Fonte: José Tarcísio Medeiros de Vasconcelos – CRM/SP 53.677 e Fernanda Mariani Rodrigues Crivellaro – CRM/SP 167.937

Data da última atualização: 06/06/2023