Car-T Cell revoluciona o tratamento do mielona múltiplo
Car-T Cell revoluciona o tratamento do mielona múltiplo
Tecnologia que combina técnicas da engenharia genética e terapia imunossupressora chega como solução para pacientes que não obtêm boas respostas com os tratamentos estabelecidos. Com resultados tão promissores, especialistas já projetam aplicações em fases mais precoces da doença.
A terapia à base de células Car-T (Car-T Cells) para o mieloma múltiplo promete revolucionar o tratamento dessa enfermidade caracterizada por mutações genéticas nos plasmócitos, as células que fazem da nossa medula óssea uma ‘fábrica’ de anticorpos especializados no combate de vírus e bactérias. Quando ocorre a doença, plasmócitos defeituosos se multiplicam rapidamente, comprometendo a produção de plasmócitos saudáveis e de outras células do sangue, além de poder danificar a nossa estrutura óssea em várias partes, inclusive causando fraturas.
Aprovada no ano passado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a terapia está sendo aplicada no Brasil somente no âmbito de estudos clínicos (pesquisa) dos quais participam apenas pacientes nos quais as terapias já estabelecidas não apresentaram respostas satisfatórias.
Em uso há cerca de sete anos em países como Estados Unidos, Europa, China e Japão, com aproximadamente 8 mil pacientes tratados, a terapia com Car-T Cells tem sido aplicada para diversas indicações, como certos tipos de linfomas e leucemias agudas. Já no mieloma, a incorporação dessa tecnologia é mais recente, há cerca de três anos.
Contudo, os resultados no mieloma múltiplo impressionam: a quase totalidade das pessoas tratadas apresentam ótimas respostas, com redução importante das proteínas produzidas pelas células doentes, sinalizando o bom controle do mieloma. Em alguns casos, as respostas são ainda mais surpreendentes, pois não é possível identificar por meio de qualquer exame a presença da enfermidade. Para podermos falar de cura, será preciso mais anos de uso e mais estudos, mas os especialistas estão entusiasmados.
Para o futuro, já se espera a aplicação de Car-T Cells em fases mais precoces do tratamento. Para tanto, pesquisas precisam comprovar que essa é a melhor opção de tratamento, pois atualmente um número expressivo de pacientes obtêm boas respostas com as terapêuticas convencionais já disponíveis, como anticorpos monoclonais, medicamentos biológicos e transplante autólogo de medula óssea. Para que a Car-T seja incorporada em linhas mais precoces, será necessário demonstrar que é superior aos tratamentos já existentes.
A ideia é que a Car-T Cell passe a ser usada como segunda linha de tratamento. Hoje o paciente é inicialmente tratado durante quatro a cinco meses com as medicações estabelecidas e é transplantado na sequência, se tiver condições clínicas para isso. Por enquanto, a Car-T Cell chega como a opção para casos refratários aos tratamentos usuais, mas já estão sendo realizados estudos no exterior para comparar o transplante de medula óssea e a Car-T Cell como segunda linha de tratamento. Ou seja, os pacientes recebem o tratamento inicial com medicamentos e depois são randomizados para receber transplante ou a terapia à base de células Car-T.
Entendendo a terapia
Car-T Cell é uma forma de terapia celular na qual linfócitos T do paciente são extraídos por meio de um procedimento chamado aférese, que promove a separação dos componentes do sangue por centrifugação em equipamento automatizado. Enviados para laboratório especializado no exterior, os linfócitos T são modificados por meio de técnicas de engenharia genética. Os especialistas chamam essa etapa de manufatura, orientada a tornar as células de defesa modificadas capazes de identificar com mais rapidez e efetividade proteínas expressas na superfície dos plasmócitos doentes. Esse passo, que pode demorar pouco mais de um mês, é fundamental para que as células de defesa do paciente possam atacar e eliminar as células doentes do mieloma múltiplo.
Após o processo de manufatura, os linfócitos T são reencaminhados para os centros médicos que conduzem o tratamento para que possam ser infundidos no paciente, que fica internado entre 10 e 14 dias. Nesse período, ocorre um processo inflamatório dirigido e intenso, etapa chamada tecnicamente de síndrome de liberação de citocinas. Na prática, os linfócitos T modificados reintegrados ao sistema de defesa do paciente passam a atacar as células doentes de forma mais eficiente que as células não modificadas.
Se as nossas células de defesa podem ser comparadas a um exército microscópico, as Car-T Cells equivaleriam à formação e capacitação de um grupo de elite para a identificação e combate do batalhão de agentes inimigos do mieloma múltiplo.
Diante da complexidade da terapia, fica evidente porque é fundamental que os pacientes contem com centros especializados, com equipe de hematologistas e multidisciplinar de primeira linha, enfermaria de excelência, UTI bem-equipada e segura, banco de sangue estruturado e suporte de neurologistas, tendo em vista que a síndrome de liberação de citocinas pode vir acompanhada de alterações neurológicas.
Pesquisadores de várias partes do mundo também estão trabalhando para aperfeiçoar a eficácia dessa inovadora tecnologia na área de oncologia, aumentando sua efetividade e a duração de resposta. Os focos são reduzir a toxicidade inflamatória da terapia, acelerar o tempo de manufatura, aumentar e aperfeiçoar os alvos moleculares que servem como marcadores químicos para ação dos linfócitos T e desenvolver a manufatura de outras células de defesa, como as células NK. Estudos já indicam que este é um caminho promissor também no tratamento do mieloma.
Fonte: Phillip Scheinberg – CRM/SP 87.226
Data da última atualização: 04/07/2023




