Tumores cerebrais em crianças e adolescentes
Sem estratégia de prevenção, é fundamental observar os sintomas e buscar o diagnóstico e tratamento precoces desse que é o segundo tipo de câncer mais comum entre crianças e adolescentes.
Apesar de incomuns, é preciso que pais e profissionais da saúde estejam atentos aos sinais dos tumores pediátricos do sistema nervoso central. Desenvolvendo-se a partir de qualquer tipo de células do cérebro ou da medula espinhal, eles constituem o segundo tipo mais frequente de câncer entre crianças e adolescentes, ficando atrás apenas das doenças hematológicas, principalmente as leucemias e os linfomas. Quando consideramos apenas os órgãos sólidos, são as lesões malignas mais comuns nessa faixa etária e também a principal causa de morte, ultrapassando até as leucemias no quesito mortalidade.
Raramente a doença é congênita. Os tumores cerebrais e medulares pediátricos são, em sua grande maioria, classificados como esporádicos, isto é, não estão associados a síndromes genéticas. Eles se formam ao longo do desenvolvimento infantil devido a causas ainda desconhecidas, impondo diferentes desafios para serem detectados precocemente em cada fase da vida.
Nos bebês com menos de dois anos, ainda sem o recurso da fala para formular queixas e representar linguisticamente os sintomas, um dos principais sinais da doença é o aumento exagerado da cabeça (macrocefalia), o que torna fundamental a medição periódica do perímetro cefálico nas visitas de rotina ao pediatra. Esses especialistas se valem de métricas padronizadas que levam em conta a idade e o sexo da criança para verificar se o crescimento da cabeça está dentro do esperado. Quando há aumento exagerado, são necessárias investigações para confirmar ou afastar a possibilidade de tumor.
Outro sintoma em bebês é a irritabilidade, manifesta pelo choro exagerado, conjugada com atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor, como dificuldade de sentar aos seis meses, não engatinhar aos nove meses ou não tentar ficar de pé para começar a andar aos doze meses.
Para crianças acima de dois anos e adolescentes, o principal sintoma é a dor de cabeça (cefaleia) persistente, presente em cerca de um terço dos pacientes. Geralmente, ela tende a ser pior pela manhã, quando a criança acorda, sendo acompanhada de vômitos. Muitas crianças dizem que a dor de cabeça diminui após vomitarem.
Também são comuns náuseas e alterações no ritmo da fala e na marcha, caracterizada por falta de coordenação dos passos e desequilíbrio, fazendo a criança andar com as pernas afastadas, como se estivesse bêbada. Os médicos chamam esse quadro de ataxia. Além disso, podem ocorrer visão turva ou em duplicidade e episódios de torcicolo.
Como diagnosticar
Esses sinais e sintomas devem ser investigados por meio de tomografia ou ressonância magnética. A tomografia, por se tratar de um exame rápido, passível de ser realizado em até cinco minutos, muitas vezes é empregado nos quadros emergenciais. Já a ressonância, embora seja mais cara e menos disponível em todo o território nacional, é mais detalhista e resolutiva. Como se trata de um exame que demora cerca de uma hora para ser realizado, em crianças abaixo dos sete anos é feito com o auxílio de sedação.
Como tratar
O tratamento inicial de tumores pediátricos do sistema nervoso central, sejam malignos ou benignos, é geralmente a cirurgia, visando à remoção completa das massas tumorais. Em pouquíssimos casos, lesões benignas podem ser apenas acompanhadas por meio de consultas periódicas. No enfrentamento dos tumores malignos, é comum que, após a cirurgia, o tratamento seja complementado com quimioterapia e/ou radioterapia, esta também realizada com sedação. Já no caso dos benignos, muitas vezes só a cirurgia é um procedimento resolutivo.
No campo dos medicamentos, a novidade está relacionada com a medicina de precisão que, a partir do estudo da estrutura molecular das células doentes, tem se valido de drogas alvo-dirigidas e imunoterápicos (remédios que ensinam o sistema imunológico a atacar as células cancerígenas) para personalizar e potencializar os efeitos da quimioterapia. Atualmente, a quimioterapia convencional ainda é o carro-chefe, mas a tendência é que nos próximos anos os remédios alvo-dirigidos e imunoterápicos ganhem cada vez mais espaço nos tratamentos.
Avanços em várias frentes
Nos últimos anos, além do refinamento dos métodos diagnósticos que vêm garantindo a detecção mais precoce dos tumores, as técnicas cirúrgicas têm evoluído com a melhoria dos instrumentos cirúrgicos e dos sistemas de microscopia eletrônica, permitindo intervenções mais precisas e seguras. Também têm contribuído para a melhoria gradativa dos desfechos terapêuticos os avanços dos equipamentos de radioterapia, possibilitando emissões de radiação cada vez mais exatas sobre os tumores, evitando afetar tecidos saudáveis adjacentes.
O resultado é que cresce ano a ano o número de crianças e adolescentes curados graças à abordagem multidisciplinar oferecida em centros de referência como a BP, com a participação de neurocirurgiões, radioterapeutas e oncologistas, além de profissionais como fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e psicólogos, que atuam no processo de reabilitação dos pacientes.
Atenção aos sintomas e sinais
Embora se saiba que exposição exagerada à radiação e algumas síndromes genéticas, como neurofibramatose e a esclerose tuberosa, aumentam o risco para o desenvolvimento de cânceres pediátricos do sistema nervoso central, a ciência ainda tem poucas informações sobre os fatores que podem desencadear a formação desses tumores em crianças e adolescentes, o que dificulta o estabelecimento de estratégias preventivas. Daí a importância da educação dos pais e da população em geral sobre sinais e sintomas da doença que indicam a necessidade de buscar ajuda médica especializada, possibilitando que cânceres do gênero sejam diagnosticados e tratados o mais rapidamente possível.
Fonte: Iuri Neville - CRM/SP 142.464
Data de produção: 05/09/2022
Data da última atualização: 08/09/2022




