Álcool em excesso aumenta risco de AVC hemorrágico, alerta neurocirurgião

Com a chegada do Carnaval — período tradicionalmente associado ao aumento do consumo de bebidas alcoólicas — um alerta importante ganha destaque: o uso excessivo de álcool está diretamente relacionado a quadros mais graves de AVC hemorrágico, um dos tipos mais letais de derrame cerebral.

O tema foi abordado pelo professor e chefe da disciplina de Neurocirurgia da Unifesp e chefe da Neurocirurgia da Beneficência Portuguesa de São Paulo, Dr. Feres Chaddad, um dos principais especialistas em neurocirurgia do país.

O que é considerado consumo excessivo?

Segundo o especialista, o consumo excessivo de álcool pode ocorrer de duas formas: crônica ou aguda.

“O consumo frequente já é, por definição, um consumo excessivo. Independentemente do Carnaval. Pequenas doses diárias também configuram excesso. Da mesma forma, a pessoa que não está habituada a beber e ingere grande quantidade em um curto período também está praticando consumo excessivo”, explica.

Ou seja, tanto a ingestão diária contínua quanto o chamado “beber pesado ocasional”, comum em festas e feriados, são prejudiciais e podem gerar consequências graves.

Vinho e cerveja fazem mal?

Existe a crença popular de que pequenas doses de vinho, por exemplo, seriam benéficas ao coração. No entanto, o médico é categórico: todo álcool é deletério a longo prazo.

“Independentemente da justificativa, o álcool é prejudicial. Ele pode causar doenças hepáticas, como cirrose, altera a coagulação do sangue, eleva a pressão arterial e aumenta o risco de AVC — tanto o isquêmico (falta de sangue) quanto o hemorrágico (rompimento do vaso).”

A hipertensão arterial é a principal causa de AVC, e o consumo crônico de álcool está diretamente associado ao aumento da pressão.

Como o álcool age no cérebro?

O álcool tem afinidade por gordura, e o sistema nervoso central é rico em gordura — especialmente a bainha de mielina, estrutura que reveste os neurônios e permite a condução rápida dos impulsos nervosos.

“O álcool atua justamente nesse ‘encapamento’ do neurônio. Com o tempo, há perda da bainha de mielina. O indivíduo passa a apresentar lentificação, alterações de comportamento, perda de coordenação e prejuízo cognitivo.”

Isso explica por que o cerebelo — região responsável pelo equilíbrio e coordenação motora — é uma das primeiras áreas afetadas. Daí o andar em zigue-zague e a perda de reflexos em quem bebe.

Além disso, o consumo crônico pode levar à atrofia cerebral. Exames de imagem frequentemente mostram que etilistas crônicos com 30 ou 40 anos apresentam cérebro com características de indivíduos muito mais idosos.

Risco aumentado de hemorragias

O álcool também interfere na coagulação sanguínea. Pessoas que fazem uso crônico apresentam maior propensão a sangramentos. Em casos de AVC hemorrágico, o sangramento tende a ser mais extenso.

Outro fator agravante é a associação com tabagismo. O cigarro aumenta significativamente o risco de ruptura de aneurisma cerebral.

Bebidas diferentes, mesmo risco

Seja cerveja, vinho, uísque ou cachaça, o agente nocivo é o mesmo: o etanol.

“O álcool é o mesmo, independentemente da bebida. O que varia é a concentração.”

Bebidas destiladas, por possuírem maior teor alcoólico e alto valor calórico, tendem a favorecer maior impacto metabólico e hepático, especialmente quando substituem refeições.

Gordura no fígado e cirrose

O consumo excessivo pode levar ao acúmulo de gordura no fígado e, com o tempo, à cirrose hepática. Muitos indivíduos substituem refeições por bebida alcoólica, o que gera desnutrição proteica, perda de massa muscular e acúmulo de líquido abdominal (ascite).

A combinação perigosa: álcool e energético

Uma prática cada vez mais comum, especialmente entre jovens, é misturar bebida alcoólica com energético.

“O energético eleva subitamente a pressão arterial e altera o ritmo cardíaco. Quando combinado com álcool, potencializa os efeitos nocivos no cérebro e no coração.”

Esse aumento abrupto da pressão pode desencadear a ruptura de aneurismas cerebrais até então desconhecidos pelo indivíduo.

Caso real: AVC hemorrágico no tálamo

Durante a entrevista, um ouvinte relatou o falecimento do pai por AVC hemorrágico no tálamo, associado a uso crônico e excessivo de álcool.

O tálamo é uma estrutura profunda do cérebro e uma das regiões mais frequentemente acometidas por AVCs, tanto isquêmicos quanto hemorrágicos.

“Dependendo da extensão da hemorragia, o quadro pode ser extremamente grave. Lesões extensas nessa região frequentemente levam ao óbito ou a estado vegetativo, com posterior evolução para complicações infecciosas.”

O uso crônico de álcool altera a parede dos vasos sanguíneos e a coagulação, favorecendo sangramentos mais volumosos.

O álcool pode matar?

Sim.

O risco não se limita ao fígado. O álcool pode provocar:

  • Hipertensão arterial

  • Arritmias cardíacas

  • AVC isquêmico

  • AVC hemorrágico

  • Crises convulsivas

  • Traumatismos cranianos por queda

  • Atrofia cerebral

  • Comprometimento cognitivo

“Desde a alteração de reflexos que leva a uma queda até um sangramento cerebral grave, o álcool pode matar.”

Conclusão

O Carnaval é um período de celebração, mas o aumento abrupto do consumo de álcool pode trazer consequências severas e irreversíveis.

O alerta é claro: não existe consumo totalmente seguro quando há excesso — seja ele diário ou concentrado em poucos dias de festa. A moderação não é apenas uma recomendação social, mas uma medida concreta de preservação da saúde cerebral e cardiovascular.