Neurocirurgia no Brasil cresce, mas acesso ainda é desigual entre regiões
- 21 de setembro de 2026
O número de neurocirurgiões aumentou no Brasil na última década, mas a expansão da força de trabalho não foi acompanhada pela mesma evolução no acesso aos serviços especializados. É o que aponta um estudo que analisa a distribuição dos profissionais e a capacidade de atendimento neurocirúrgico no país.
O trabalho conta com a participação do Dr. Feres Eduardo Aparecido Chaddad Neto, neurocirurgião e coordenador da Neurocirurgia da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, com atuação reconhecida internacionalmente em microneurocirurgia.
Os resultados mostram um cenário que os pesquisadores classificam como um paradoxo: o Brasil possui profissionais e centros capazes de oferecer tratamentos neurocirúrgicos de alta complexidade, mas parte da população ainda enfrenta dificuldades para chegar a esse atendimento.
Número de neurocirurgiões aumentou 50,9%
Entre 2015 e 2025, o número de neurocirurgiões no Brasil passou de 2.875 para 4.340 profissionais, um crescimento de 50,9%. Nesse período, a densidade nacional aumentou de 1,43 para 2,04 neurocirurgiões para cada 100 mil habitantes.
Apesar desse crescimento, a distribuição dos especialistas permanece desigual entre as regiões brasileiras.
O Sudeste concentra 53,4% dos neurocirurgiões do país, enquanto a região Norte reúne apenas 5,5%. Além das diferenças entre regiões, o estudo aponta que a concentração também ocorre dentro dos próprios estados, principalmente nas grandes cidades e regiões metropolitanas.
Isso significa que a quantidade de profissionais disponível em uma determinada região não é, sozinha, suficiente para determinar se a população consegue ter acesso ao atendimento.
Distância e infraestrutura também determinam o acesso
Na neurocirurgia, o tempo necessário para chegar a um hospital especializado pode ser determinante, especialmente em situações de emergência. Por isso, fatores como transporte, infraestrutura hospitalar, disponibilidade de exames e organização dos sistemas de referência e contrarreferência têm papel importante no atendimento.
O Brasil possui um sistema público universal de saúde, o Sistema Único de Saúde (SUS) , organizado em diferentes níveis de complexidade. Os procedimentos neurocirúrgicos mais especializados, porém, estão concentrados principalmente em centros terciários.
Na prática, uma pessoa que vive distante desses centros pode enfrentar dificuldades para conseguir diagnóstico e tratamento em tempo adequado, mesmo que existam profissionais especializados no estado ou na região.
O que são os chamados “desertos neurocirúrgicos”?
O estudo utiliza o conceito de “desertos neurocirúrgicos” para descrever regiões nas quais existe formalmente algum nível de assistência, mas o atendimento especializado é, na prática, difícil de acessar.
Nesses locais, o problema não está necessariamente apenas na ausência de neurocirurgiões. Também podem faltar recursos essenciais para o atendimento de casos complexos, como exames de imagem avançados, tratamento endovascular, equipes especializadas e unidades de terapia intensiva.
Essa combinação pode aumentar o tempo entre o surgimento de uma doença, seu diagnóstico e o início do tratamento.
Malformações arteriovenosas mostram impacto da desigualdade
As malformações arteriovenosas cerebrais (MAVs) são um exemplo de condição em que a organização da rede de atendimento pode fazer diferença.
As MAVs são alterações nos vasos sanguíneos do cérebro que podem apresentar risco de sangramento. O diagnóstico e o tratamento podem exigir a participação de diferentes especialidades e recursos de alta complexidade.
Em grandes centros urbanos, pacientes podem ter acesso mais rápido a exames especializados e equipes multidisciplinares. Já em regiões mais distantes, dificuldades de transporte, diagnóstico e encaminhamento podem prolongar o tempo até o atendimento adequado.
Por isso, o tratamento dessas condições depende não apenas da existência de especialistas, mas também de uma rede integrada de atendimento neurovascular .
Mais profissionais não são suficientes
Os dados analisados pelos pesquisadores mostram que ampliar a formação e a distribuição de neurocirurgiões é importante, mas não resolve sozinho as diferenças de acesso.
Para reduzir as desigualdades, o estudo aponta a necessidade de combinar a disponibilidade de especialistas com infraestrutura hospitalar, redes regionais de atendimento, sistemas eficientes de encaminhamento e telemedicina .
A criação de redes neurovasculares regionais também pode contribuir para conectar hospitais de diferentes níveis de complexidade e facilitar a transferência de pacientes que necessitam de atendimento especializado.
O desafio é transformar capacidade em acesso
O cenário brasileiro mostra que ter profissionais altamente especializados e tecnologia avançada não significa, necessariamente, que esses recursos estejam disponíveis para toda a população de maneira equivalente.
Para os pesquisadores, o desafio da neurocirurgia brasileira nos próximos anos está em aproximar a capacidade existente das necessidades de cada região. Isso envolve olhar não apenas para o número de especialistas, mas também para onde eles estão, quais recursos estão disponíveis e quanto tempo o paciente leva para chegar ao tratamento .
Assim, ampliar o acesso à neurocirurgia depende de uma estratégia integrada, capaz de combinar formação e distribuição de profissionais, infraestrutura, organização das redes de saúde e uso de novas tecnologias.
O estudo reforça, dessa forma, que o avanço da neurocirurgia no Brasil não deve ser medido apenas pela quantidade de especialistas ou pela capacidade tecnológica dos grandes centros, mas também pela possibilidade de a população, independentemente de onde vive, conseguir chegar ao cuidado especializado quando precisar.




